Desafios na inclusão educacional de pessoas com deficiência, ainda impactam crianças e adolescentes na garantia ao direito à alfabetização na cidade de São João del-Rei
Apesar das diretrizes da Lei Brasileira de Inclusão, São João del-Rei ainda caminha lentamente rumo à efetivação de um ambiente educacional inclusivo. Entre a ausência de profissionais capacitados, salas de aula não adaptadas e material não adequado, muitas crianças enfrentam o desafio de uma alfabetização digna. Nesse contexto, o retrato local acompanha uma tendência nacional, como apontada pelos dados do IBGE, onde a taxa de analfabetismo entre pessoas com deficiência é aproximadamente 5 vezes maior do que pessoas sem deficiência.
Com 36 anos de atuação na APAE, a diretora pedagógica, Dorinha Teixeira Brighenti, afirma que o maior desafio para o combate à alfabetização de pessoas com deficiência é a falta de crença e motivação. “Fazer com que a criança entenda o processo e se motive a continuar nele”, relata Dorinha, reforçando que, nesse caso, é essencial trabalhar a autoconfiança dos estudantes e envolvê-los de forma que entendam a necessidade do aprendizado em suas vidas.
Dorinha relata também que, na escola regular, o trabalho de alfabetização é feito com caneta e papel, algo que não é tão vantajoso para um aluno com deficiência. “É preciso de ludicidade. Todos os conteúdos precisam ser trabalhados de forma individual, com brincadeiras, jogos e atividades adaptadas à condição da criança”, diz.
A capacitação dos professores é um dos pilares fundamentais para garantir a inclusão e a alfabetização das crianças. De acordo com a diretora pedagógica, o professor precisa ser qualificado a todo momento, com cursos profissionalizantes na área de educação inclusiva, buscando aprimorar seus conhecimentos e atender as diferentes necessidades dos alunos. Além disso, Dorinha diz que “não adianta um professor trabalhar apenas por ter um currículo. É preciso ter amor, trabalhar por e com amor. Ser professor de uma criança especial é ser especial tambem”.
Do outro lado da rede, a realidade se mostra desafiadora. O diretor do Cesec Professor José Américo da Costa de São João del Rei, João Vitor Souza, pedagogo e mestre em educação especializado em educação inclusiva pela UFSJ, afirma que o Cesec não tem direito ao ensino especializado para alunos com necessidade especial. Isso ocorre porque a escola segue o modelo de ensino Educação de Jovens e Adultos (EJA). Apesar da presença de um intérprete de libras e capacitação através de cursos, o entrevistado afirma que a ausência do ensino especializado é sim prejudicial.
João Vitor relata que já ocorreram com ele e com colegas situações em que se sentiram incapacitados de realizar atividades com alunos deficientes, principalmente, pela ausência de um especialista, como posteriormente citado. O material da escola é inflexível por conta do modelo aplicado, mas o diretor reafirma que o corpo docente tenta ao máximo suprir essa necessidade.
São diversos os desafios no ensino de alunos com deficiência. Um dos que mais se destaca, sem sombra de dúvidas, é a negligência. Segundo o diretor, o grupo de transtornos mentais é amplamente negligenciado. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, Transtorno do Espectro Autista, Transtorno Dissociativo de Identidade e diversos outros. Isso ocorre porque o diagnóstico não é facilmente percebido e, sem a procura por parte da família, pouco pode fazer o corpo docente. Assim, diversos estudantes afetados pelos transtornos acabam sendo taxados como preguiçosos ou como os famosos “alunos-problema”. Souza acrescenta, no entanto, que apesar de uma questão complexa, a educação inclusiva vem expandindo cada vez mais a sua área de cobertura, objetivando superar essas barreiras.
João avalia que o sistema precisa pensar primeiro nos indivíduos ao invés de índices vagos. Segundo o diretor, os números de pesquisas educacionais não refletem a realidade enfrentada na rede pública e problemas como a ausência de educação especializada e o analfabetismo entre os alunos com deficiência é uma lacuna antiga e que o governo parece pouco se importar em preencher. O foco deve recair no grupo dos estudantes e também nos professores, que se encontram desmotivados e com a sua área de atuação sucateada. João afirma que gestores são selecionados e aprendem a gerir durante a sua atuação, sem preparo prévio, o que demonstra com muita clareza a falha do sistema. Atualmente, o Estado proporciona um modelo de ensino maçante, que, para o estudante regular, já se torna um desafio e, para o estudante com deficiência já negligenciada pelo sistema, um desafio ainda maior. Portanto, “humanizar o ensino pensando em todos os indivíduos é a chave para uma melhoria na inclusão na educação", ele finaliza.
Apesar das tentativas, a reportagem tentou entrar em contato com outras fontes, como, estudantes com deficiência ou responsáveis, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria.
Por: Gabrielli Caldeira e Guilherme Mendes