Depois de cinco anos, os impactos da pandemia do Covid-19 ainda estão presentes no dia a dia dos jovens de São João del-Rei, em um cenário marcado pela falta de acesso a cuidados psicológicos e apoio contínuo
A saúde mental dos jovens brasileiros enfrenta uma crise agravada pelos efeitos da pandemia do Covid-19. Segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mais de 50% dos jovens entre 18 e 24 anos relataram sintomas frequentes de ansiedade e depressão em 2022, reflexo direto do isolamento social, da sobrecarga emocional e da insegurança quanto ao futuro. Além disso, pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que o Brasil possui apenas 5,76 psicólogos por 100 mil habitantes na rede pública, o que revela um déficit significativo no acesso democrático a cuidados psicológicos. Em São João del-Rei, essa realidade se reflete nas universidades, nas escolas e nas famílias, onde jovens lidam com os efeitos invisíveis de um trauma coletivo ainda pouco tratado pelas políticas públicas.
Estudante do sétimo período de psicologia e integrante do projeto de extensão MoviMente, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Letícia Costa Paiva, 21 anos, destaca que a saúde mental dos jovens também deve ser priorizada no ambiente universitário. “É necessário criar mais iniciativas que promovam a saúde mental do público juvenil, principalmente dentro da universidade e na rede pública de saúde”, defende.
O projeto de extensão surgiu diante da crescente demanda por apoio psicológico entre os estudantes, proporcionando um espaço de escuta e acolhimento voltado principalmente aos alunos da universidade. As inscrições são abertas no início de cada semestre e divulgadas nas redes sociais do próprio projeto (@movimenteufsj). Entre os principais efeitos relatados pelos estudantes atendidos estão o atraso na graduação, o trancamento de cursos e o sentimento de desamparo. Letícia também destaca que o estigma sobre o sofrimento psíquico ainda dificulta o acesso à ajuda, especialmente entre os mais jovens.
A futura economista pela UFSJ, Raíssa Alves, 22 anos, ingressou na universidade em 2021, ainda sob o regime remoto. Ela relata que a transição para o ensino presencial agravou sentimentos de ansiedade e incapacidade. “A gente não teve contato com ninguém no início e, de repente, se viu dentro da faculdade, cercada de pessoas e responsabilidades”, relata. Queda de rendimento, dificuldade de concentração e falta de rotina são efeitos que ela ainda carrega.
Estudante de Arquitetura e Urbanismo na UFSJ, Micaela Mendes, 22 anos, declara que a sua saúde mental também foi afetada ao longo de sua jornada acadêmica. A jovem pontua que a pandemia teve consequências diretas na sua forma de estudar, como o desafio tecnológico e a falta de atenção por causa da tela. “Precisei iniciar tratamentos psicológicos básicos em casa e isso já foi um sinal de que algo estava diferente”, comenta.
Os impactos se estendem também a outros grupos vulneráveis da cidade. Para a psicóloga e coordenadora de saúde da APAE em São João del-Rei, Lidiane da Silva Moreira Leite, a pandemia acarretou impactos significativos para a saúde mental de crianças e adolescentes com deficiência. “Os atendimentos de reabilitação ficaram suspensos e as orientações foram feitas online, mas sabemos das limitações do atendimento remoto com esse público”, explica.
Para tentar lidar melhor com a situação, a APAE passou a focar na psicoeducação, orientando os pais e cuidadores sobre como lidar com desafios cotidianos, já que muitos responsáveis se queixavam de sobrecarga e depressão nesse período em que seus filhos estavam sem escola e sem reabilitação. A coordenadora também chama a atenção para as consequências após a pandemia relacionada ao uso excessivo de telas, como aumento de ansiedade e agitação dos próprios jovens. Para ela, o maior desafio atual é envolver as famílias no processo de cuidado. “Nosso foco tem sido mostrar o quanto esse vínculo é essencial”, finaliza.
A psicóloga Izabela de Almeida da Silva Pereira, formada pela UFSJ, amplia a discussão ao apontar que o sofrimento psíquico juvenil, muitas vezes, é encarado como algo individualizado. “É como se o problema estivesse só no jovem, mas o mal-estar é coletivo. O adolescente não é mais doente que o restante da sociedade”, expõe.
Izabela acredita que, apesar da dor, a pandemia trouxe maior visibilidade para a saúde mental, abrindo espaço para o debate público sobre o tema. No entanto, ela ressalta que o trabalho psicológico em ambientes como as escolas ainda enfrenta barreiras. Mesmo após a sanção da Lei 13.935/2019, que prevê a presença de psicólogos nas instituições de ensino, Izabela lembra que esse trabalho não se propõe a ser clínico. “O psicólogo na escola acompanha toda a comunidade escolar, não só os alunos. Ele pode propor rodas de conversa, ações de acolhimento, mas isso ainda não é algo obrigatório”, explica. Para ela, a ausência não está apenas no atendimento terapêutico individual, mas também na falta de investimentos em espaços culturais e de lazer na cidade. “O sofrimento psíquico não se resolve só com consulta. Ele também se enfrenta com políticas de pertencimento”, destaca.
Apesar das tentativas de contato, até o momento do fechamento da matéria, a Secretária Municipal de Saúde de São João del-Rei não se posicionou sobre as iniciativas voltadas para o apoio psicológico e acolhimento do público juvenil no município.
Apoio psicológico gratuito
O Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) é um projeto de extensão que oferece apoio psicológico às demais pessoas da comunidade. Os atendimentos são realizados por estudantes em formação em psicologia por meio da atuação, os quais, sob orientação docente, colocam em prática os conhecimentos teóricos do curso. O SPA está localizado no Campus Dom Bosco, Rua Padre João Pimentel, número 80. Para mais informações, o número é (32) 3379-5188. É necessário realizar a inscrição e passar por uma triagem presencial.