O grupo Lendas Sanjoanenses combina o turismo com a arte cênica, oferecendo ao público uma experiência com tours noturnos por São João del-Rei acompanhados de apresentações teatrais com a participação de atores que interpretam personagens das lendas urbanas da cidade.
Conversamos com um são-joanense que dedicou grande parte da sua vida a divulgar as maravilhas de sua cidade natal, atuando por mais de duas décadas como guia turístico. Aposentado, Cristóvão Vitalino aproveitava o tempo livre à noite para exercer a função de guia turístico. Em 2006, realizou um curso de educação patrimonial e turismo e, após isso, foi convidado a ser narrador do projeto Lendas Sanjoanenses, no qual atuou por um longo período, também como sonoplasta. Atualmente, não participa diretamente do projeto, mas ainda colabora na organização dos eventos.
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Igreja Nossa Senhora do Rosário, onde as apresentações se iniciam.Reprodução: Miguel Alves
Uma das principais histórias é a Missa das Almas, que retrata uma idosa que acordou mais cedo para ir rezar e encontrou com diversas almas - como o nome sugere - na igreja. As histórias foram extraídas do livro “Contam que”, de Lincoln de Souza. Apesar das dificuldades financeiras, o projeto continua ativo e, neste ano, tornou-se uma associação, estando agora apto a captar recursos públicos. Segundo Cristóvão, em alguns momentos, os participantes chegaram a custear as apresentações com recursos próprios
Igreja Nossa Senhora do Pilar, onde se conta a lenda “Missa das Almas”. Reprodução: Miguel Alves
Miguel: Como você entrou para o mundo do teatro e da arte?
Cristóvão Vitalino: Eu comecei a entrar nesse mundo da arte em 2006. Fiz um curso de turismo pela, por um projeto aí, se eu não me engano, pela Lei Rouanet. E aí, nesse curso, tinha aulas de turismo, educação patrimonial, inglês, até espanhol teve, porque esse curso era voltado para receptivo de pessoas do exterior.
Lucas Simões: Você chegou a trabalhar em outros projetos culturais?
CV: Eu trabalhei num projeto cultural que chamava Visita e Espetáculo ao Teatro Municipal.E eu trabalhei como condutor de turismo no espetáculo, mostrava o teatro por dentro, ia até o palco, mostrava as partes do palco, mostrava o teatro por dentro, ia até o palco, mostrava as partes do palco. Nesse meio que eu estava no palco, entravam os atores e aí começavam a interpretar uma peça e o público ia para o banco, sentava e assistia aquela peça ali.
M: E você sempre trabalhou de guia de turismo?
CV: Não, não. Eu fui militar do exército. Fazia isso nas horas vagas, à noite, era como um hobby. Eu gosto de São João. Eu sou daqui, sou natural daqui. Então, eu sou apaixonado pela história dessa cidade. Eu acho que a cidade merece muito mais destaque do que tem hoje, né? Nós temos muito mais beleza natural e patrimonial, tanto na parte material quanto imaterial do que muitas cidades aqui, né?
M: E como você entrou para o projeto? Você chegou a participar dos teatros?
CV: Não, atuar não. Fui um dos guias. Então, somos guias de turismo, atores e equipe de apoio. Hoje eu trabalho na Sonoplastia. Para você ter ideia, fico lá na mexendo com o som do projeto Lendas.
Igreja Nossa Senhora das Mercês, onde a apresentação se encerra. Reprodução: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Sao_joao_del_rei_igreja_n_sra_merces.jpg
M: O projeto Lendas são-joanenses, você acha que ele tá conseguindo alcançar o objetivo dele?
CV: Sim, claro. Claro, porque quando a gente começou, ninguém conhecia a gente. Mas hoje se a gente falar que vai ter um espetáculo, lota. Então, a gente é muito privilegiada, esse pessoal gosta muito e fica sempre perguntando nas redes sociais, quando é que vai ser o próximo? Eu tenho certeza que nós conseguimos passar essas lendas para muita gente, não só de São João del-Rei. Muita gente assistiu Lendas de várias cidades.
M: Como ficou o grupo durante a pandemia?
CV: Na pandemia, a gente fez algumas lives no YouTube, colocamos várias lendas lá. Porque não teve jeito de fazer, ainda que os espaços estivessem abertos, não podia aglomerar A gente fez dessa maneira, mas sem receber.
M: O senhor comentou que você estava buscando atores para fazer um agora para junho,. Quais as dificuldades que estão enfrentando?
CV: Apesar de a gente estar em abril, dois meses,é muito pouco para poder preparar o ator para poder interpretar. Mas a gente tem pouco ator, né? A gente tem, hoje nós temos, efetivamente, quem, quem, que atuam aí com mais frequência, duas atrizes. E atores, nós temos: eu vou excluir o Jadil, que ele é um dos coordenadores, que ele faz a parte de ator, mas ele tem que estar coordenando também. Então, fora ele, nós temos dois atores.
Lucas(entrevistador): Mas isso é porque as pessoas não estão querendo mais ser atores ou porque essas pessoas estão saindo da cidade?
CV: A gente prioriza muito quem, de preferência, quem é da cidade, sabe? Ou bem próximo, porque as nossas, quando a gente faz a apresentação, geralmente, é final de semana. E quando o aluno, por exemplo, quando a pessoa, geralmente, eu falo aluno porque, às vezes, é estudante de teatro, né? Dia de semana tá disponível, mas no final de semana não, porque, às vezes, vai viajar, né?Tem que ir para sua casa e tal.
L: Há uma desvalorização dessa profissão por parte da sociedade, que tira os benefícios, tanto financeiros, quanto da arte mesmo, você concorda?
CV: Eu não sou ator, então, eu não sei falar por eles. A gente faz isso, vamos dizer, por amor à cidade e pelo projeto, né? Por isso que a gente faz, porque a gente cobra ingresso, né? E aí era até uma coisa meio complicada de cobrar, porque se você faz um espetáculo na rua, como é que você vai cobrar, né? Mas aí a gente teve só alguns questionamentos, mas que não atrapalhasse. A pessoa pagar, ela pagava, porque, às vezes, a pessoa, quem gosta de cultura, paga, né? Quem valoriza a cultura não vai, não vai questionar isso.
L: E assim, você com a experiência que você já conseguiu, teria alguma mensagem para passar para quem tá querendo começar nesse ramo do teatro, da cultura mais regional?
CV: Eu já te falei que eu não sou ator, mas para quem tá querendo começar tem que ter muita força de vontade. Você pode dar uma freada, tem vezes que desanima mesmo. Você tem uma infinidade de motivos para desanimar, porque como você disse no início, a cultura ela não é tão bem valorizada quanto outras áreas. Então, é difícil para a pessoa colocar um projeto no papel que não depende só de você. Quando não depende só de você, depende de outros, aí você não tem só que realizar, você tem que fazer com que aquela pessoa ou as outras pessoas aceitem e e e simulem sua sua ideia.
Repórteres: Miguel Alves e Lucas Simões