A Igreja de Nossa Senhora das Mercês foi fundada em 1751, e reformada em 1877, sendo constituída em um ponto elevado da cidade. Além de sua arquitetura, a igreja é conhecida pela quantidade de fiéis, suas famosas escadas são instrumentos do turismo e prática da religião ( penitência). Foto: Reprodução/Manuella Oliveira
A escassez de acessibilidade promovida pela prefeitura atua como um dos principais veículos na falta de apoio à cultura local. Grande parte dos moradores locais, deixam de se relacionar com instrumentos culturais pela falta divulgação dos eventos e a falha no apoio governamental. O engenheiro de produção, Conrado Veloso, natural de São João Del Rei explica a situação atual da atividade cultural da cidade. Por ser morador há quase 30 anos, a fonte possui total domínio ao falar sobre os movimentos culturais que não são vivenciados pelos próprios residentes, essa recorrência é fruto da falta de acessibilidade à arte.
Essa entrevista ocorreu na tarde do dia 26 de abril, em meio a uma das mais famosas ruas de São João Del Rei, a " Rua da cachaça", sempre repleta de turistas. Por ser uma cidade histórica, é comum pensarmos que toda a comunidade esteja inserida nela, mas será que é realmente assim? Em São João Del Rei não é diferente, normalmente, a cidade não costuma incluir os moradores locais em aspectos culturais da própria cidade. Além disso, segundo Conrado, a divulgação dos eventos possuem uma falha grave, não sendo relacionada ao público referencial que é a própria população são joanense, uma vez que os moradores não possuem conhecimento das atividades que a cidade possui.
O Museu Regional de São João del-Rei passou por grandes mudanças ao longo dos anos, a disputa sobre o que fazer com o casarão percorreu durante muito tempo. O que antes iria se tornar um hotel foi transformado em um dos museus mais importantes de São João del-Rei, sendo aberto a visitação de forma gratuita. Foto: Reprodução/Letícia Rabelo
Durante a entrevista, Conrado manifestou ser uma pessoa interessada em cultura e relatou que a arte de modo geral é muito elitista nos dias atuais. O jovem explicitou sua insatisfação com a divulgação dos principais pontos culturais locais e afirmou que os eventos da de São João del-Rei são pouco divulgados, apesar da cidade exalar a cultura. Confira na íntegra:
Letícia Rabelo: O que São João del-Rei significa para você e há quanto tempo você vive na cidade?
Conrado Veloso: Olha , eu vivo em São João desde que nasci, em 1995. Vivo aqui minha vida inteira, São João para mim é um lugar especial, uma cidade única. São joanense está em todo lugar do Brasil.
L.R: O que é cultura, na sua visão?
C.V: Cultura para mim é expressão de emoção, expressão histórica. Colocar algo em um contexto como forma de se expressar.
L.R: Com que tipo de arte você se identifica mais?
C.V: Acho que qualquer tipo. Sou uma pessoa muito eclética. Vejo qualquer coisa, gosto muito de animação, filmes, arquitetônicas. Música nem tanto, gosto mais de podcasts. Apesar de ser uma pessoa de exatas, gosto muito de acompanhar e ver conteúdos em museus quando tenho oportunidade.
L.R: Qual a importância dela na sociedade, na sua opinião?
C.V: Hoje, infelizmente, a arte se tornou algo muito mais elitista do que sempre foi. Por exemplo, os livros mais vendidos no Brasil são utilitaristas Para você se abastecer com conteúdo artístico, custa caro. Porque o trabalhador não tem tempo, consequentemente, não tem dinheiro e fica sem oportunidades. Ele prefere colocar seu filho em um curso técnico do que em um curso artístico. A arte, cada vez mais, tem sido algo segregado e, cada vez mais, oferecida somente a populações que têm mais dinheiro e tempo para poder acessar esse tipo de oportunidade.
L.R: Você visita com frequência os principais museus e pontos culturais e participa de eventos da cidade? Se sim, quais?
C.V: Essa rua, estou todo sábado. Vou sempre ao “Pantanal”, minha rua preferida. Vou aos museus no centro, vou às igrejas, exposições. Gosto de visitar, principalmente, o museu perto do Carmo para ver e aprender sobre coisas diferentes. São João é um lugar bem legal para passar o tempo. Participo dos eventos da cidade como semana santa, inverno cultura, finados, muitos eventos da cidade.
L.R: Ao longo da sua vida, como tem sido a sua relação com a cultura da cidade?
C.V: A cultura da cidade é mais uma cultura que eu busco; que os são joanenses buscam. Porque, se dependesse da cidade, seria muito difícil. A cidade não divulga cultura, ela exala cultura, mas não divulga. Nós temos que buscar. Minha relação com a cultura de São João é meio abusiva: se não correr atrás, não tem nada. Não tem divulgação de museu, não tem divulgação de igrejas, não tem nada.
L.R: Sobre o acesso a esses locais e elementos culturais, você interpreta que ele é facilitado para os moradores daqui ou apenas turistas os visitam mais? Por quê?
C.V: Geralmente, é turista porque ele tem interesse. O são joanense pouco vê, é pouco divulgado. Deveria ter divulgações recorrentes, hoje em dia tem redes sociais, a prefeitura poderia investir nisso. A universidade não investe em nada, você não vê nada patrocinado pela UFSJ como exposições de artistas locais ou feiras para trazer artistas da cidade ou da região. Para o local é péssimo, você vai em Tiradentes e vê muito mais opções. Aqui temos grandes artistas, que não são divulgados.
L.R: Você mencionou Tiradentes. Na sua opinião, você acha que Tiradentes estabelece mais essa relação de divulgação?
C.V: Com certeza, mas não para o local tiradentino. Lá é muito segregado também, 100% para turistas. Porque lá é caro. O tiradentino não vai querer gastar o tempo dele, vai estar trabalhando. Mas lá a divulgação é melhor.
L.R: O que você acha que poderia ser feito para facilitar a acessibilidade cultural dos cidadãos São joanenses?
C.V: Divulgação. Não adianta só postar na página. Tem que investir, colocar dinheiro e falar que vai ter exposição de um artista ou evento tal. Hoje em dia é só passivo, só se eu procurar o que vai ter. Não tem algo chegando até mim e falando que vai ter evento tal, não tem.
Morador de São João del-Rei expõe sua opinião sobre a falta de divulgação de eventos e movimentos culturais da cidade. Entrevistado: Conrado Veloso/ Entrevistadora: Letícia Rabelo/ Foto:Manuella Oliveira
Repórteres: Letícia Rabelo/ Manuella Oliveira