Aos 67 anos, a aposentada Eunice Pereira Santos Fritzen carrega em cada peça a história de uma vida dedicada ao artesanato. Autodidata desde a juventude, ela encontrou na pintura em tecido, no gesso e na madeira não apenas uma paixão, mas uma oportunidade de trabalho que sustentaria a sua família por muitos anos. Responsável pela Associação de Artesãos Bárbara Bella de São João del-Rei há 26 anos, Eunice testemunhou as mudanças do fazer artesanal na cidade. A artesã relata que luta diariamente para que essa tradição se mantenha viva, mesmo com o fator da industrialização e da produção em massa, que afeta o trabalho dos artesãos.
Panorâmica da Associação de Artesãos Bárbara Bella com itens artesanais.
Foto por: Rafaela Nery.
O artesanato na cidade histórica é mais que um meio de geração de renda: é uma expressão viva da cultura local, moldada pela criatividade e pela tradição transmitida entre gerações. Em meio à crescente concorrência com produtos importados, os artesãos são joanenses enfrentam o desafio de manter vivos os saberes manuais. Eunice destaca que há uma luta constante entre o manual e o industrial, de acordo com a baiana, a produção industrial concorre de modo desleal ao manual, já que não se exige tempo, criatividade e amor à peça.
A Associação de Artesãos Bárbara Bella, espaço acolhedor e repleto de cores, foi palco das falas da baiana que mostrou como, mesmo com as mudanças do tempo, a essência do trabalho artesanal continua sendo um ato de resistência e amor. Cercada por adereços de madeiras pintadas, tecidos bordados e esculturas de gesso, ela falou com leveza e sinceridade sobre sua trajetória, suas técnicas e os desafios enfrentados pelos artesãos atualmente. A presença de associações, como a que a artesã faz parte, torna-se fundamental para fortalecer essa rede de saberes e dar visibilidade à produção artesanal no cenário turístico e econômico do município.
Entrada da Associação de Artesãos Bárbara Bella.
Foto por: Rafaela Tarsitani Reis.
Entre esses desafios, Eunice aponta a dificuldade da valorização do artesanato local pelos moradores da região, sendo uma questão cultural, onde o alvo é o turista. Essa falta de reconhecimento por parte da comunidade limita o crescimento econômico do artesanato, além de desfazer os laços entre moradores e cultura. A artesã também acredita que a valorização do fazer manual passa por uma mudança cultural e regional, refletindo em como valorizamos a cultura de outras regiões quando viajamos.
Eunice diz que foca na identidade cultural da comunidade são joanense, como exemplo as frases mineiras. Para ela, a identidade da região é a grande chave para os diferentes tipos de artesanatos. A baiana também afirma que a tecnologia facilita, que não há mais dificuldades como antigamente, antes ela fazia as próprias tintas com pigmentos, hoje ela já vem pronta.
Trabalho feito por Eunice em panos de prato.
Foto por: Gabrielli Caldeira.
O artesanato em São João del-Rei não é devidamente valorizado e interfere na vida de muitos artistas além de Eunice. Por esse motivo, a artista finaliza o bate-papo dizendo: “tem que ser muito forte para resistir.”
Como o artesanato surgiu na sua vida? É uma técnica com raízes familiares?
No meu caso foi autodidata mesmo, eu gostava muito. Eu comecei com pintura em tecido, em casa, sozinha. Muitos anos depois eu fui fazer um cursinho para pegar as técnicas, ver as tendências da moda. Hoje eu faço mais a pintura a frio, que é no gesso, na madeira, em qualquer material, mas tudo à base de PVA sem solventes, e tecido também, que é uma tinta à base de água.
Faz quantos anos você está nessa jornada com o artesanato?
Desde os meus 18 anos. Depois eu casei, tive que parar um tempo por causa dos meus filhos, depois voltei novamente quando eles estavam um pouco maiores. Eu fui morar um tempo em Santos e foi lá que eu tive a oportunidade de fazer cursos, porque aqui em São João não tinha, agora até que tem uns cursos, mas antigamente não tinha.
Existe um tipo de “método” ou “técnica” que se repete entre diferentes artesãos, mesmo que de forma intuitiva?
Cada um tem um trabalho diferente. Cada um tem uma técnica. Mas atualmente, eu conheço o artesanato de algum artesão pela técnica que ele usa, eu sei exatamente quem fez determinada peça. Cada um usa uma técnica diferente, um material diferente. Tem uns que você vê o capricho, já em outros nem tanto.
Existe alguma marca sua registrada nas peças?
Minha? Não sei, outro colega de trabalho teria que falar. Na minha pintura não pode faltar o branco.
Quando você viu que o artesanato poderia virar seu trabalho?
Tudo começou como um hobby, comecei porque eu gostava. Eu tinha uma certa atração pelo pincel, pela tinta. O artesanato sustentou a minha casa por muitos anos. Antigamente o artesanato não era tão valorizado como é hoje, então era considerado artesanato hippie, aquele que é exposto na rua, que é outra cultura totalmente diferente, mas que existe até hoje. O artesanato sustenta a família de muitos artesãos atualmente, porém não é a minha principal fonte de renda porque eu já sou aposentada né, aposentei com 60 anos, mas até lá foi a minha principal fonte de renda sim.
Você acha que o artesanato pode ser uma forma de resistência cultural? Diante dessas tantas peças importadas, em massa?
Tem que ser muito forte para resistir, os importados estão acabando com o artesanato e se a gente deixar, ele vai acabar. Enquanto a indústria faz 12 mil peças em uma escala, a gente que é artesão consegue produzir, uma, duas, porque o trabalho é todo manual. Tem que ter muita resistência para vencer isso. Já vi peças de ferro que sai às vezes por 9 reais aqui, e delas sai por 2 ou 3 reais. Isso é um absurdo. Tem que ter muita resistência, talvez por isso que alguns artesãos estão sumindo, procurando outras alternativas. Aqui na loja eu tenho artesãos que não tem o artesanato como principal fonte de renda, mas para a maioria aqui é sim.
Como funciona a associação?
Aqui é uma Associação de artesãos. Atualmente, estamos em 10 artesãos e cada um faz o seu produto em casa, é uma produção caseira, no fundo do quintal mesmo e depois traz a peça para expor aqui no ateliê.
Quais são os principais desafios para manter o artesanato vivo hoje em dia?
Eu acho que isso é uma questão cultural. Agora a gente tem um maior fluxo de turismo, coisa que não estávamos tendo há 10 anos atrás, a gente vem lutando por todo esse período. Com essa nova administração na cidade estamos sentindo que está começando a melhorar um pouco, não vou dizer que está 100%, mas começou a dar uma melhorada. O nosso alvo é o turista, quem mora na cidade não valoriza muito o nosso artesanato. Assim como nós quando viajamos achamos legal a identidade cultural da região.
Quais são os impactos ambientais causados pelo material utilizado?
Eu particularmente não vejo esse impacto. As vezes que trabalhei com a cerâmica foi no forno, você vai lá e assa a peça. Já a madeira, quando trabalhamos, ela já está lá ‘jogada’, estamos reciclando o que foi impactado.
Você já incorporou inovações ou adaptações científicas/tecnológicas no seu processo artesanal?
É bem raro, alguma coisa. A gente foca muito na identidade cultural da nossa comunidade. Como exemplo as frases mineiras, o ‘mineirês. Mas às vezes dá uma loucura e sai algo inovador, um pouco fora da caixinha e fora da nossa identidade cultural. A tecnologia vai facilitando né, quando eu comecei a pintar não tinha pano liso igual a esse, era aquele saco grosseiro.
O que você falaria para alguém que deseja iniciar no artesanato hoje?
Muita resistência. Muita força de vontade se quiser seguir esse caminho. Os que estão começando não está fácil, tem que gostar muito. Se for para começar como uma fonte de renda imediata precisa esperar um pouco, agora se quiser começar como um hobby para transformar, mais tarde, em uma fonte de renda, tudo bem. Tem que ser persistente, é uma luta de muitos anos.
Qual a diferença de uma peça artesanal para uma peça industrial?
O MDF, por exemplo, é cortado a laser, mas se você olhar bem ele não é artesanal, ele é industrializado. As tintas também, antigamente a gente fazia as próprias tintas com pigmentos, hoje eu não mexo mais com isso, ela já vem pronta. Para ser considerado artesanato tem que ter pelo menos 90% de trabalho a mão, se não perde a essência.
Você acredita que tem que ter o dom para poder fabricar o artesanato?
Sim, tem que ter o dom, criação, inspiração. Não adianta falar que não precisa, tem que ter. O autodidata, que eu falo, ele tem o dom, ele não precisa de ninguém para auxiliar.