Mulheres no Samba: como o samba enredo do interior de Minas Gerais movimenta vidas

No dia 13 de abril é comemorado o Dia Nacional da Mulher Sambista, em homenagem ao nascimento da cantora e compositora carioca Dona Ivone Lara, um dos maiores nomes do samba no país. Segundo a professora de música Renata Amaral, em trecho retirado de uma matéria do Jornal da USP, essa data é fundamental para o enfrentamento do machismo estrutural presente na sociedade que reflete diretamente no cenário do samba, onde há a falta de representatividade nas rodas de composição, além da sexualização da mulher que é simplificada como a dançarina de pouca roupa. 

Para entender a realidade das mulheres que trabalham com o Carnaval em São João del-Rei, cidade famosa por seus desfiles, entrevistamos a atual compositora da Bate Paus, Jussara Marcelino, sobre a relação dela com o Samba Enredo e com o Carnaval de São João del-Rei. Jussara é a única mulher que compõe na cidade atualmente. A entrevistada relata sua trajetória com o samba desde a influência do gênero em sua família, lembranças com seu tio, Hélio Alex - antigo compositor da cidade- e o início da sua carreira em 2008, quando participou de um concurso da escola.





Alessandra: O seu primeiro contato com o samba foi em um concurso que só tinha homens. Como você se sentiu?

Jussara: É, foi eu e minha irmã. [...] até então, parece que em São João já tinha tido uma moça, no Tijuco, que ela tinha feito uma composição. [...] Uma vez eu fui compor para o Tijuco um samba de enredo, e aí essa moça comentou comigo que ela já tinha feito uma composição. Então, assim, eu não fui a primeira, né? Mas para mim, lá, a primeira vez, eu fiquei bastante insegura. [...] Eu acho que é uma coisa meio que de Deus, vamos colocar assim, né? [...] Talvez, se eu tivesse desistido no dia, eu não ia nem saber que eu ia ter essa oportunidade, né? [...] Mas eu não desisti, eu fui assim mesmo, com a cara e a coragem.

A: Você sente que há preconceito?

J: Eu sei que tem, principalmente, aqui na minha comunidade. Eu sei que tem muita gente que gosta, me parabeniza, me abraça. Às vezes, eu acho até que eu não mereço tanto. Mas assim, eu sinto isso da comunidade. Mas já houve preconceito, sim. Já houve.




Richard: Como você percebe o impacto do seu trabalho na comunidade?

J: É legal porque você vê uma coisa que é tão pequenininha ali quando você tá compondo, mas, assim, você não imagina a grandeza daquilo ali. Depois, 400 pessoas vão por aí cantando, na avenida, porque nosso desfile geralmente sai nessa faixa de pessoas, 400, 450. Então, você vê todo mundo cantando, desde criancinha até a pessoa mais idosa. Aqui em cima tem um diferencial porque as pessoas abraçam muito a escola, abraçam muito o samba, o enredo. Então, tem aquele envolvimento muito grande da comunidade.

R: Socialmente, você sente o impacto dos seus enredos? Não só para quem prestigia, mas para quem atua no Carnaval.

J: Teve um senhor na avenida esse ano, que na hora que ele me viu, ele estava chorando. Ele falou assim: “muito obrigado que você fez essa coisa tão bonita para nós esse ano.” Então, assim, a gente não tem ideia daquilo que você vai impactar na vida do outro, mas a gente sabe que tem impactos, né? Principalmente, para as pessoas que são da família dos fundadores. Porque eles têm aquilo ali como uma herança.




R: Você ainda tem algum objetivo enquanto compositora de samba enredo?

J: Nem passava na minha cabeça. A minha vontade era só compor alguma coisa bonita pra escola, né? Então, eu acho assim, igual eu te falei, cada samba que eu faço é um presente, entendeu?

R: Você se sente reconhecida pelo seu trabalho?

J: O samba desse ano foi criticado. Falaram: ‘rima pobre.’ [...] Pode ser uma rima pobre, mas é uma rima que me deixa feliz. Porque você vê uma criança aí de cinco, seis anos ou até menos, cantar uma letra inteirinha [...] Para mim, não existe rima pobre ou rima rica [...] Não tem nada melhor do que ver uma criancinha ali [...] o menino pegou o microfone e cantou a letra inteira. Um menino de uns 10 anos, 11 anos no máximo. Eu falei: “nossa mãe, eu quero essas rimas pobres pelo resto da vida.”

Repórteres: Richard Xavier e Alessandra Silva






Postagem Anterior Próxima Postagem