É possível separar objetividade de subjetividade jornalística?


Uma das questões que se coloca como primordial ao se pensar o fazer jornalístico na atualidade é a fronteira entre aquilo que é pensado como objetividade e o que é articulado como subjetividade.

A objetividade no jornalismo é apresentada por diferentes teóricos e a sua historicidade data de meados do século XIX. Durante esse processo, por meio da adoção da ideia de imparcialidade, figurava, nos principais meios empresariais da imprensa, uma roupagem de negócio que visava a um suposto regime de credibilidade jornalística. Em oposição, outros pensadores instrumentalizaram a subjetividade, porém, em certa medida, com os mesmos propósitos daqueles que tinham como premissa a objetividade na construção do discurso jornalístico. Essa dualidade, embora pareça estabelecer parâmetros autoexcludentes, retroalimenta-se em uma dinâmica que persiste até este momento; conforme denunciou Richard Hardwood, jornalista e colunista do Washington Post, “o mesmo desequilíbrio - o domínio dos canais de notícias por uma meia dúzia de fontes - ocorre em tudo o que fazemos”.

Ao considerarmos as empresas jornalísticas brasileiras, por exemplo, o que se nota com frequência é que poucas redes de comunicação dominam o discurso daquilo que é noticiado. Essa dominância, ao angular, enquadrar e operar ideologias, inerentemente subjetivas, explicitam escolhas que aparentam isenção e encenam neutralidade. Como consequência disso, a notícia como mercadoria, ao tentar manipular e esvaziar o senso crítico-político, pode conduzir a um imaginário social estigmatizante e excludente. Um exemplo disso ocorre com a imbricação entre grandes portais de comunicação e outros menos abrangentes na veiculação da imagem racializante das populações pretas associadas a estereótipos de criminalidade, vandalismo e violência.

Além disso, a articulação midiática da informação como pretenso “espelho da realidade” transmite uma ideia de verdade que desloca o foco e formata disputas, estabelecendo dinâmicas de poder por meio das quais age-se sobre o outro na mobilização de um fazer-saber. Tal pressuposto difunde a noção epistemicida de que existe “um outro” que não é capaz de construir sentidos e saberes. Sutilmente ou não, noções como “dar voz ou visibilidade ao outro” explicitam posicionalidades em que conceitos ou epistemes, a exemplo de “lugar de fala”, são tomados equivocada ou distorcidamente, resultando em hierarquias subjetivas nas quais o “eu” - que domina o discurso - sobrepõe-se a um “outro” subalternizado. Dessa forma, imersos no jogo de poder, os ideais deontológicos de imparcialidade, isenção e compromisso com a verdade - marcadores da objetividade - são obnubilados.

Portanto, reforça-se o posicionamento de que ambos os pressupostos de subjetividade e de objetividade se entrecruzam, uma vez que estão inseridos em um contexto sociocultural dominado por disputas mercadológicas das culturas. Seria, assim, ingênuo conceber a atividade jornalística apartada de construções discursivas em que as barreiras entre o subjetivo e o objetivo são delimitadas de forma demarcada e óbvia na percepção dos limites que supostamente os categorizam como polos dicotômicos.

Por Dirceu J. Vieira, Isabella Emily Cunha, Lídia Oliveira

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