Lei ‘anti-Oruam’ e a criminalização do funk.
“Chamar de música bandido é a melhor forma de legitimar a violência que o Estado faz nas periferias”, diz Paulo Mambelli.
Foto por @maria.carvalhoph
O MC, produtor e diretor Paulo Mambelli possui forte relação com a cena do rap e funk. Os dois artistas (Oruam e Mambelli) possuem trajetórias similares, iniciando seu caminho dentro das comunidades e favelas, a modo de inspirar e mostrar melhores condições para garotos assim como eles. De acordo com o entrevistado, a Lei anti-Oruam defende uma ideologia de afastamento do periférico à arte, retirando a sua fala da grande mídia.
Mambelli é um artista independente que lida diariamente com os desafios da censura e da desvalorização de seu trabalho, e consegue compreender as nuances da possível aprovação da Lei “Anti-Oruam”.
O rapper Oruam, filho de Marcinho VP, principal líder do tráfico de drogas do Rio De Janeiro, é foco do projeto de lei protocolada pela vereadora da cidade de São Paulo, Amanda Vettorazzo (União Brasil), A proposta tem como objetivo proibir a contratação de artistas que realizam apologia ao crime e uso de drogas em eventos abertos ao público infanto-juvenil. Segundo a autora do PL, a população se conscientizaria do combate ao tráfico de drogas e crime organizado.
A reportagem conversou sobre o tema com Mambelli. A entrevista ocorreu na casa da repórter Ana Liz. Em um clima amigável, a entrevista foi realizada debatendo a importância da arte periferizada para a sociedade e discutindo as formas de resistência da comunidade em relação a criminalização do funk.
Ana Luiza: Estou aqui com o Paulo Mambelli e a gente vai debater sobre “A criminalização do funk e a lei anti-Oruam”. Mas antes, Mambelli, eu queria que você contasse pra gente um pouco sobre você, o que você busca aqui em São João, o que te levou para o curso de jornalismo e com o que você pretende trabalhar.
Paulo Mambelli: Boa tarde, meu nome é Mambelli e trabalho com cultura, mais especificamente, hip hop vai fazer nove anos. Eu vim para São João cursar um superior, agora em uma federal, e para me manter estudando, principalmente, porque vários moleques mais novos pensam em viver da música, da arte, mas um plano B também é muito necessário.
AL: Se você tivesse que escolher alguma área específica para trabalhar dentro do jornalismo, para qual você iria?
AL: E você falou que trabalha na área da música há nove anos. O que te levou para essa área, como cresceu seu interesse? Você acha que há espaço para esse tipo de vivência no interior?
PM: Claro que sim, tem. Tem muito espaço, acho que o que mais sobra é espaço, mas tem pouca oportunidade e pouca referência. A internet mudou muito isso, possibilitou romper um pouco essa fronteira. Muito do que eu conheço do hip hop eu bebi da fonte do skate, de estar na pista. Em qualquer lugar, mano, que tiver uma quebrada, vai ter esse tipo de vivência.
AL: Se você tivesse que escolher algum artista que influenciou seu som, que você admira, quem seria?
PM: Mano, Preto Rei que é integrante do grupo de rap ‘Sem Caô’. Eu faço rap por conta desse cara. O Rashid que, pra mim, é o Deus da lírica brasileira.
AL: E em questão desta lei ‘anti-Oruam’, um assunto que está bastante em alta na política, como você acha que isso funciona como uma forma de censura?
PM: Esse tipo de lei funciona muito mais para defender uma ideologia que afasta o periférico da arte, mas, ainda assim, faz uma grana com isso. A discussão é muito mais sobre o que é a apologia e porque essas pessoas que não cantam funk estão dizendo sobre como cantar funk, rap, já que, sem nenhuma bagagem sobre eles, tendem para uma visão de quem odeia mesmo.
AL: Você acha que existe uma diferença entre o rap e o funk de periferia e a música que chega nas grandes mídias?
PM: Existe um abismo dentro disso. Eu acho que se, a Ana Castela tivesse nascido na Rocinha, dificilmente ela seria quem ela é. A indústria mudou de roupa, mas ela ainda segue os mesmos costumes. Eles continuam lucrando com a dor da favela por que isso vende.
AL: Como você diria que a aprovação da lei afetaria artistas como você ou pessoas que estão pensando em viver da música?
PM: Mano, desculpe a palavra, mas vai foder a economia que já está fodida. Para uma molecada que costuma tirar leite de pedra e se esforçar para fazer com o que tem, é uma quebra do ciclo financeiro, sabe? As pessoas querem consumir cultura, mas quando a gente coloca isso numa caixinha, quem vem da quebrada, que a gente sabe que é odiado, eles tendem a deslegitimar isso.
AL: Por que você acha que o Oruam é o alvo dessa lei?
PM: Porque o pai dele tá preso e é líder de uma das maiores facções criminosas do nosso país. Eu entendo que o menino ali canta pela liberdade de um pai muito mais do que pela defesa de um bandido. É tentar usar ele de bode expiatório para destruir uma cultura. Não vão conseguir, mas abala.
AL: Essa censura é algo que vem de muito tempo, a tentativa de abafar as culturas da periferia. Como você acha que as pessoas podem continuar resistindo a isso e lutando contra?
PM: Entendendo a força do ser político e não só do ser que consome. Nós aqui como indivíduos temos um peso na nossa palavra, nos espaços que a gente ocupa, o povo unido pode realmente mudar. Acho que pra resistir é tentar se conectar.
AL: Falar sobre a ostentação e sobre a conquista dentro da periferia incomoda. Você acha que existe uma diferença entre falar sobre crescer dentro da periferia, ostentar, e a apologia ao crime? Ou essa ostentação seria apologia?
PM: Nossa, eu acho que são duas coisas completamente diferentes. É muito difícil para uma classe burguesa, que sempre tudo teve, entender o que é conquista. Você tem que sair de um lugar e chegar a outro. Quando a gente fala sobre ostentação, acho que ela só é vista com maus olhos por quem sempre teve.
AL: E relacionando com isso que você acabou de falar, você acha que existe uma diferença muito grande entre artistas brancos que cantam sobre a vida na periferia e os artistas pretos?
PM: Com certeza, a gente pode ver isso nos line-ups dos festivais, dentro das gravadoras. A gente pode ver isso na mídia tradicional. A mídia tem uma tendência fortíssima de abraçar muito mais o papo se ele vier de uma normatividade, de um cara branco, hétero, cis.
AL: E agora mais pessoalmente, o que você procura atingir com sua música?
PM: A arte chegou na minha vida de uma maneira muito caótica, mas muito gostosa. Na época que eu não queria ouvir ninguém, aquelas batidas no bolso, eu fui me apaixonando e alguns anos depois quando eu me vi perdido, a música veio e foi essa companhia que eu precisava quando eu mesmo não era uma boa companhia pra mim. Hoje eu tento levar essa companhia boa, um conselho pra quem não teve.
AL: Você acredita que a arte, além de ser forma de resistência, salva vidas?
PM: Acho não, eu tenho certeza. Eu ouso dizer que o hip hop já salvou mais vida no Brasil do que pelo menos uns cem projetos sociais que foram aprovados. O hip hop faz nas comunidades o que o Estado jamais conseguiria. Entre dança, arte, cultura, felicidade, celebração, existe a resistência.
https://youtu.be/LxE7DNA1NxQ?si=1mAIK0SjnyR6JXT4
Repórteres: Ana Luiza Duarte e Ana Liz Taschetto