Na última semana, manchetes dos principais veículos de comunicação brasileiros enfatizaram a manifestação que ocorreu na Avenida Paulista, no último domingo (06). Percebeu-se que alguns jornais não trouxeram o ato de protesto como destaque, optando por discorrer a respeito de outros fatos ocorridos naquele dia. Entretanto, notou-se que essas agências de notícias continuaram enfatizando este levante político na imagem de capa de seus jornais, o que representou uma incoerência na angulação de qual o fato o veículo pensou em protagonizar, ou seja, houve um desvio da manchete principal com o intuito de promover outro fato.
Diante do exemplo supracitado, o que se entende é que a existência de algo totalmente objetivo e imparcial é praticamente impossível. Podemos constatar esta afirmação projetando uma análise pautada nas diversas formas que um fato pode ser noticiado. Nenhum profissional do jornalismo consegue mascarar de forma plena a “bagagem” de ideologias, juízos de valor e até mesmo de influências desenvolvidas a partir de experiências pessoais. Tudo isso nos leva a compreender que o processo de produção e formatação do produto jornalístico inquestionavelmente passa pelo balanço de ideias feito pelo jornalista.
Discorrendo sobre essa questão, os jornalistas Tom Rosenstiel e Bill Kovach defendem que, “no conceito original, o método é objetivo, não o jornalismo”. O posicionamento dos autores reflete o fato de que a produção de uma notícia com foco na centralidade do ocorrido, naturalmente, passa por um processo de objetividade. Esse processo constitui-se de uma análise crítica dos fatos, por meio da apuração dos relatos de fontes consultadas, no qual a opinião destas fontes deve sempre ter o protagonismo. Porém, no fazer jornalístico, tal processo comunga-se com a subjetividade, que já é própria do jornalista. Muitas vezes, esse contraste é, no mínimo, perigoso, visto que o jornalista entra em uma contradição que, muitas vezes, acaba por não satisfazer o interesse público. A partir dessa análise, o ato de comunicar se torna um ciclo vicioso que satisfaz somente o público daquele portal midiático e não a esfera social como um todo.
Conclui-se que é incoerente pensar em uma mídia condicionada à imparcialidade total. Devemos nos lembrar que, por trás de cada informação redigida e repassada, há um ser humano que detém uma série de pensamentos pré-existentes e que não pode simplesmente deixá-los de lado. Nas palavras do professor Ricardo Jardim Andrade, “a imparcialidade total é um mito antigo com roupagem nova.”
Por Rafael Salviano e Yuri Henrique.
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